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Gazeta Mercantil, 11 de dezembro de 2008 - A principal lição que a crise traz para o mercado brasileiro é não permitir a proliferação de créditos de alto risco, também chamados de subprime, que estão na origem da crise internacional. O sistema financeiro e as empresas imobiliárias entraram em colapso quando iniciou a inadimplência nos empréstimos imobiliários de risco que, por conta das sucessivas transferências em processos de securitização ou cessão, acabaram por afetar em cadeia toda a economia. No Brasil, em que o mercado secundário de títulos começa a se desenvolver, havia - e há - maior rigor na concessão do crédito, mas o excesso de liquidez e a velocidade dos negócios poderiam levar à mesma armadilha em que caíram as instituições estrangeiras. Com a experiência atual, fica claro que nosso mercado de securitização de títulos deverá caminhar com segurança, evitando uma futura e trágica crise hipotecária brasileira.
Outra importante lição diz respeito ao planejamento empresarial. O mercado extremamente favorável impeliu diversas companhias a empregarem os recursos captados quase que exclusivamente na compra de terrenos, para expandir a capacidade de negócios. Contavam, assim, com financiamento bancário para execução das obras, mas com a reversão do panorama de crédito, ficaram repentinamente sem capacidade de quitar as dívidas e de construir, sendo obrigadas a vender seus ativos. Mesmo que as perspectivas de determinado momento sejam boas, não se pode apostar todas as fichas na manutenção de um quadro econômico positivo. O arrojo empresarial é sem dúvida uma qualidade, mas deve ser temperado com certa moderação, que vislumbre também situações negativas, ainda que improváveis.
A tal propósito, é importante ressaltar que já aprendemos muito com crises anteriores. O chamado caixa único, em que uma empresa utilizava os recursos de um empreendimento para aplicar em outros, ou em atividades diversas, foi praticamente banido do mercado, após as nefastas conseqüências do chamado "efeito Encol". O patrimônio de afetação das incorporações e a ampla utilização de sociedades de propósito específico (SPE) nos empreendimentos, decorrem de lições aprendidas anteriormente, que hoje protegem os compradores de imóveis. Por conta disso, apesar da difícil situação de algumas empresas, há pouco risco de paralisação de obras.
Também ficou claro que a busca desenfreada por terrenos, muitas vezes sem medir valores ou mesmo parâmetros éticos de concorrência, é na verdade uma bomba- relógio, que cedo ou tarde irá estourar. Nos últimos anos, as incorporadoras disputaram terrenos, alguns nem tão bons assim, como em verdadeiro leilão, levando seu preço às alturas. Agora, com a retração do mercado, as contas simplesmente não fecham. A aquisição de imóvel para empreendimento imobiliário é um processo científico e como tal deve ser considerado.
Por fim, uma das maiores lições a serem aprendidas é que, mesmo com o mercado aquecido, as empresas devem permanecer fiéis às suas vocações e culturas próprias, não simplesmente seguir o estouro da boiada. É justamente nessa virtude que residem a criatividade e inovação do setor imobiliário. É claro que se pode atuar em novas frentes, mas sem perder de vista a identidade e valores próprios de cada organização, que precisam ser sempre transmitidos à equipe e aos consumidores.
kicker: Mesmo com o mercado aquecido, as empresas devem permanecer fiéis às suas vocações e culturas próprias
(Rodrigo Cury Bicalho - Sócio de Bicalho e Mollica Advogados, especializado em Direito Imobiliário e Empresarial e integrante do Conselho Jurídico do Secovi-SP)
Gazeta Mercantil, 11/dez |