Monitor Mercantil, 21 de novembro de 2009 - O setor imobiliário é um dos segmentos econômicos com melhores perspectivas para 2010. Apesar de promissor, o setor ainda é visto com desconfiança por parte dos investidores. Aqueles que aplicaram nas companhias que abriram capital nos últimos anos amargaram fortes prejuízos. "São três grandes fatores que impulsionam o segmento: o crescimento da renda das classes menos favorecidas; o elevado déficit habitacional; e o acirramento da competição entre os bancos", afirma o sócio-diretor da FinPlan, Maílson Kykavei. O próprio governo, com o programa Minha Casa Minha Vida, consiste em uma mola para o segmento e estimula que as construtoras invistam em obras voltadas para a classe de baixa renda. Kykavei lembra que a demanda por imóveis é elevada, já que o Brasil tem um acentuado déficit habitacional, entre 7 e 8 milhões de moradias e, com o incremento do crédito, as pessoas tendem a preferir pagar o financiamento ao invés do aluguel. "Os bancos estão ampliando as carteiras de crédito para este setor e há o movimento de alongamento dos prazos e redução dos juros, o que facilita o acesso. Dentro deste cenário não dá para imaginar que o setor não será promissor nos próximos anos", complementa.
Mas não só as companhias voltadas para a habitação estão se deparando com um céu de brigadeiro. Ainda existe a proximidade de eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas que ocorrerão no Brasil. Estes dois fatos são importantes propulsores para que sejam feitas importantes obras de infra-estrutura.
"Quem acredita neste cenário e procura alternativas para investir no setor imobiliário deve estar atento para as companhias melhor estruturadas e especializadas em certos nichos que serão os mais beneficiadas, ou seja, vão se valer do déficit habitacional", ressalta o especialista da FinPlan.
Retomada
O sócio do escritório Navarro Advogados, Alexandre Tadeu Navarro, lembra que em todas as áreas é possível verificar o movimento de retomada, iniciado nos últimos 90 dias. "Basicamente, a sensação é positiva tanto no mercado interno e externo, o que levou à retomada dos projetos", diz.
Na avaliação do especialista, o cenário atual, de juros mais baixos, com perspectiva de crescimento econômico, faz com que a tendência de recuperação seja consistente. "O risco é de uma eventual alta dos juros, mas somente uma alta forte muda a perspectiva", destaca.
Ao mesmo tempo, diante do elevado déficit habitacional brasileiro, o setor imobiliário está longe de uma bolha, similar à que ocorreu no mercado norte-americano. "O que pode impactar negativamente o desempenho do setor imobiliário é um repique da crise internacional, de forma a reduzir o fluxo de capitais para o Brasil. No entanto, diante da escassez de bons negócios no mercado externo, dificilmente isso deve ocorrer. Os riscos estão menores que no passado", defende Navarro.
Programa Minha Casa, Minha Vida
No caso dos empreendimentos de moradia popular, o programa do governo "Minha Casa, Minha Vida", é o impulsionador do crescimento elevado. "É como por nitroglicerina em um tanque de gasolina. O setor vem em uma velocidade muito grande de crescimento, principalmente no interior, em que os terrenos são mais baratos", ressalta Navarro.
Um das grandes beneficiadas pelo programa do governo é a MRV Engenharia. A companhia focou sua estratégia para lançar novos empreendimentos para a baixa renda. Como resultado, obteve lucro líquido recorde no terceiro trimestre deste ano, de R$ 102,6 milhões, 55,8% maior que o registrado no mesmo período do ano passado.
Todos os indicadores financeiros da companhia cresceram em relação ao trimestre anterior: receita líquida, lucro bruto, Ebitda, e lucro líquido. Em 31 de outubro, o Banco de terrenos da companhia atingiu o valor potencial de vendas de R$ 11,1 bilhões, um crescimento de 32,5% em relação ao final de junho. Este banco de terrenos corresponde a mais de 110 mil unidades e está estrategicamente distribuído em 74 cidades. O preço médio das unidades está estimado em R$100,5 mil.
Calcanhar de Aquiles
Quando todos acreditaram que o setor imobiliário iria deslanchar, a crise financeira, detonada ao final do terceiro trimestre do ano passado, foi um banho de água fria. "A visão é de que o nível de risco é elevado. Há um certo trauma devido ao passado", destaca Hykavei.
Além do trauma diante das perdas passadas, a desconfiança também está relacionada aos ganhos recentes. A questão é que, com a forte valorização dos papéis, registrada nos primeiros dez meses deste ano, a sensação que fica para os investidores é de que "deixaram o bonde passar" e, de agora em diante, a valorização das ações do setor imobiliário não será tão atrativa.
Apetite
Navarro destaca, entretanto, que os recentes lançamentos de novas ações no mercado de capitais mostra que ainda há apetite por parte dos investidores em comprar ações do setor, mesmo que o movimento seja mais comedido do que o ocorrido nos últimos anos.
Dentre as ações mais líquidas do setor, listadas na BM&FBovespa, todas mostram valorização no ano. Os ganhos médios estão acima de 100%, mesmo nos casos em que o lucro líquido acumulado nos nove meses registrou queda. As ordinárias da Tenda têm a maior alta do setor, com valorização de 386%. Outros papéis, como as ações ordinárias da Helbor, por exemplo, registram ganhos de 359% até o dia 18 de novembro. As da Abyara acumulam alta de 282,77% e da MRV 282,41%. Ainda acima de 200% de ganho estão as ações ONs da Rossi (261,58%), da Ezetec (250%), da Brookfield (219,2%).