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Valor Econômico, 02 de dezembro de 2009 - Os shopping centers querem se tornar referência em centros de lazer e de serviços aos brasileiros. A tendência, que começa a ser experimentada, deve se fortalecer nos próximos anos e cuida de detalhes que tragam mais conforto ao consumidor. Por isso, os shoppings estão cada vez mais dando prioridade à construção de torres de serviços, como centros médicos, escritórios diversos e até residências, ao mesmo tempo em que se preocupam mais com o conforto dos clientes em suas instalações. A mudança é baseada em pesquisa que indica que os clientes vão ao shopping mais para ter um serviço prestado do que para comprar. Também vão mais para ver e ser vistos e satisfazer necessidades como ir ao salão de cabeleireiro, ao cinema, e outras facilidades ligadas ao prazer e relaxamento. Segundo a última pesquisa realizada neste ano, somente 37% afirmaram ir aos shoppings especificamente para comprar. Atenta, a indústria de shopping se adequa à demanda e não há um novo empreendimento sendo erguido sem ofertar vários serviços ao consumidor. "Há um fenômeno que faz dos shoppings a extensão da casa. E com esse foco queremos que o consumidor sinta-se confortável, tenha prazer. São características que trazem o cliente de volta ao shopping sem sequer perceber exatamente porque está voltando. O shopping passa a estar muito mais focado na percepção sensorial do cliente", explica Evandro Ferrer, CEO do grupo Ancar Ivanhoe (união do grupo brasileiro Ancar com a canadense Ivanhoe Cambridge), que administra 16 shoppings, a maior parte voltada para as classes C e D. Dois deles, no Rio de Janeiro, são dedicados às classes A e B. Para os clientes, leigos nas técnicas do varejo, o fenômeno quase passa despercebido, embora os exemplos sejam muitos. Uma das primeiras mudanças implantadas para maior conforto dos consumidores é o banheiro familiar. Para quem tem crianças pequenas ou recém-nascidas, é uma característica de apelo imbatível. A luz que vem da rua e penetra nos "malls" está se transformando em constante nos shoppings novos e também vem sendo incorporada nos verticais. É outro dos fenômenos quase imperceptíveis que deixam os shoppings atuais bem distantes dos modelos herméticos de tempos anteriores, assim como o paisagismo. Até as pessoas responsáveis pela informação nos "malls" estão praticamente onipresentes para onde quer que se olhe. E, por fim, os seguranças, que antes tinham um jeito mais carrancudo, compenetrados na segurança de lojistas e consumidores, estão mais prestativos.
"O objetivo é integrar o shopping completamente à realidade do cliente, transformando-o numa cidade, onde o consumidor tenha todas as suas necessidades satisfeitas com prazer", analisa o superintendente do grupo Multiplan, Eduardo Novaes. O Multiplan administra 12 shoppings e amanhã inaugura mais um empreendimento: o Shopping Vila Olímpia, na capital paulistana, que já nasce com todas essas facilidades.
A família é o foco dessa tendência, mas não apenas aquela com filhos pequenos. O Vila Olímpia, por exemplo, está sendo inaugurado com um sofisticado boliche de 12 pistas e ano que vem terá um teatro com 600 lugares. Há também os shoppings incrustrados no que quase se pode chamar de cidade. É o caso do Espaço Cerâmica, em São Caetano do Sul, SP, que contará com residências, parques e shopping center e será construído pelo grupo Multiplan. Ali, a integração com a vida do consumidor é total. É o conceito do "work, live and play" - trabalhe, viva e divirta-se, no jargão do setor.
Ainda segundo Ferrer, os investimentos em conforto serão feitos não somente nos shoppings de classes A e B. "As classes C e D podem não ter o granito no banheiro para não ficar ostensivo, mas isso não significa que os materiais não tenham qualidade e preservem o conforto. O importante é cuidar do cliente. Ele percebe e preza essa prática", explica. E há várias formas de agradar o cliente. Na cidade de Porto Velho, capital de Rondônia, o primeiro cinema chegou com o shopping inaugurado pelo grupo Ancar Ivanhoe no ano passado. "É claro que as pessoas reconhecem o esforço feito para levar o que nunca tiveram", acrescenta o executivo.
No caso das metrópoles, Luiz Fernando Pinto Veiga, presidente da Abrasce avalia que o cuidado especial será o diferencial na concorrência entre os empreendimentos. Naquele em que o cliente encontrar maior afinidade, ele voltará. Mas, para entender a lógica comercial por trás de tantos investimentos sem retorno imediato, é importante também analisar as pesquisas de consumo. Uma delas informa que 80% dos brasileiros ainda consomem em lojas de rua, ficando em 20% os que consomem em shoppings. Nos Estados Unidos, por sua vez, os dados são o inverso: 80% consomem em shoppings e 20% nas ruas. Boa parte desse resultado no Brasil é explicado por haver regiões com razoável densidade demográfica e poder aquisitivo, mas desassistidas de centros comerciais. O fenômeno ocorre principalmente no Norte e Centro-Oeste do país. Além disso, estudo da Abrasce verifica que, se a cada cem habitantes do Sudeste brasileiro, um vai ao shopping, nas regiões Norte e Centro-Oeste esse número sobre para dois. Ou seja, o potencial de expansão no Brasil, principalmente nessas regiões carentes de serviços é muito grande. A captação e a fidelização desses clientes vão depender do apelo do empreendedor.
O caso do Porto Velho Shopping é um exemplo, já que foi o primeiro a chegar no Estado, com cinemas que possuem o mesmo padrão dos das metrópoles. O reconhecimento veio em forma de compras. Segundo Marcelo Baptista Carvalho, co-presidente do grupo Ancar Ivanhoe, o shopping é o melhor resultado de todos os empreendimentos do grupo no primeiro ano de vida - por questão de concorrência, não revela os dados. Além disso, tem o mais baixo indicador de mortalidade de lojas, também durante o primeiro ano. Somente uma loja fechou, por motivo de falência da rede à qual pertencia. Outra medida da capacidade de crescimento da indústria de shopping centers está num estudo do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social). O levantamento mostra que o Brasil ocupa o 10º lugar no ranking dos países com maior área bruta locável (ABL), com 39,5 metros quadrados de ABL para cada mil habitantes. Na Itália, esse número chega a 130 metros quadrados e no Japão, primeiro colocado, atinge 1.850 metros quadrados por mil habitantes.
O presidente da Abrasce ressalta que a leitura dos indicadores mostra que os investimentos vão continuar em direção a essas áreas desassistidas, assim como nas metrópoles. E crédito não falta. Apesar do receio sentido em 2009, de não haver crédito no mercado por conta da crise financeira internacional, as captações estão ocorrendo sem problemas. "As recentes captações feitas pelos grupos brasileiros confirmam essa tendência. A última, do Multiplan, somou R$ 790 milhões", exemplifica.
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