Valor Econômico, 04 de dezembro de 2009 - Perto de fechar a incorporação da Tenda - que deve ser aprovada sem problemas - a Gafisa já começa a sinalizar mudanças importantes na estrutura das empresas. Segundo o Valor apurou, o presidente da Tenda, Carlos Trostli, vai sair da companhia em meados de janeiro - depois de menos de um ano no cargo. Paulo Mazzali, diretor financeiro e de relações com investidores da Tenda, que deixa de ser listada em bolsa, também sai do cargo. Ao mesmo tempo em que a incorporação consolida a Gafisa no grupo das cinco maiores, coloca em evidência a operação.
Segundo a Gafisa, ambos continuam na diretoria da empresa e qualquer alteração será feita após a conclusão do processo de incorporação e devidamente comunicada ao mercado.
A Gafisa aproveita a oportunidade para arrumar a casa: aproveitar as possíveis sinergias e reduzir custos. Precisa estar com o discurso afiado para tentar uma nova oferta de ações no começo do próximo ano, provavelmente após o anúncio de resultados do quarto trimestre, segundo fontes do mercado. Com a Tenda - empresa de baixa renda que comprou em setembro do ano passado e onde está fazendo vários ajustes desde então - "dentro de casa", tem mais chance de conquistar os investidores, sobretudo os estrangeiros, interessados na baixa renda. Na opinião de analistas, a Gafisa é uma empresa com fôlego, que aproveitou o mercado de crédito com operações de debêntures, mas que precisa de uma oferta se quiser crescer na mesma proporção das concorrentes a partir de 2010.
Única entre as cinco grandes que não captou recursos em bolsa este ano, a Gafisa, apesar de ter um bom caixa para o seu tamanho (R$ 1,1 bilhão ) - está com um endividamento alto, acima da média do setor. Com uma gestão mais agressiva, sempre foi considerada uma das empresas mais alavancadas, mas atualmente a relação dívida sobre patrimônio líquido está em 126% para uma média de 68% entre as vinte companhias listadas. Acima de Gafisa, estão apenas Abyara (179%), Klabin Segall (144%) - ambas que por conta do alto endividamento foram arrematadas pelo espanhol Enrique Bañuelos - e a CCDI (172%). A dívida líquida é de R$ 2,2 bilhões.
Num mercado com muitas empresas abertas e, portanto, muita base de comparação, a Gafisa chama a atenção pelo alto volume de despesas comerciais e, principalmente, administrativas - gastos que corróem as margens. "Esse é um dos principais desafios da Gafisa. Ela tem despesa de uma empresa maior do que ela de fato é", afirma fonte que acompanha a empresa. "Ou cresce rápido ou reduz esses níveis." Nos nove primeiros meses do ano, as despesas da companhia alcançaram R$ 172 milhões, a mais alta do setor. O valor representa um aumento de 93% sobre o mesmo período do ano passado, contra um crescimento médio de 19% no setor. As despesas comerciais da Gafisa somaram R$ 154 milhões desde o início do ano e estão atrás apenas da Cyrela. A margem líquida da companhia é de 7%, metade da média do setor. A margem da MRV é de 20%, da Cyrela e da PDG fica em 18%.
Agressiva na gestão e nos conceitos, a recente contratação da modelo Gisele Bündchen pela Gafisa despertou curiosidade do público, que queria saber sobre a gravidez da modelo. Ela agora tem aparecido nos comerciais do dorso para cima, mas na primeira aparição na midia impressa usava um vestido justo, que não denunciava qualquer barriga. E também do setor, que não tem tradição de contratar garotos-propaganda desse nível, sobretudo para campanhas corporativas. Atores costumam ser usados, mas na venda de empreendimentos.
Os mais críticos acreditam que a contratação da modelo possa engordar as despesas comerciais da companhia no ano - o valor do contrato não foi revelado. Os adeptos da propaganda esperam para ver se a modelo que incrementou as vendas de produtos de consumo, como xampu e protetor solar, vai repetir a façanha no mercado imobiliário.
Apesar do endividamento e das margens fora da média do setor, este ano, a empresa teve bons resultados operacionais. No trimestre, teve aumento de 24% na receita e de 48% nas vendas. Chamou a atenção pelo aumento do lucro, que cresceu, em boa parte, puxado por ganhos não recorrentes: a amortização da aquisição com deságio da Tenda.
No ano, a ação da Gafisa sobe 181%, para uma alta de 212,03% do índice que congrega as empresas do setor. Esta semana, porém, a ação recuou logo depois que o megainvestidor americano Sam Zell tornou pública a redução da sua participação na incorporadora. A Equity International, maior acionista da Gafisa, vendeu 4,86% da sua participação, o equivalente a R$ 190 milhões com base no fechamento do dia. Mesmo com a alienação, a Equity International continua com 13,72% das ações da Gafisa. Este ano, Sam Zell também comprou exatos 4,86% da Tenda.
Desde que comprou a Tenda, a Gafisa iniciou um trabalho para mudar a companhia, que vendia apartamentos sem análise de crédito, não tinha credibilidade no mercado, estava perto da insolvência e sua ação valia menos que um cafezinho - chegou a bater R$ 0,90. Os resultados da Tenda ainda deixam a desejar, na opinião dos analistas - principalmente por estar totalmente enquadrada na demanda do pacote habitacional do governo - mas é fato que a companhia conquistou o respeito do mercado. Apenas este ano, as ações subiram 401,72% , de R$ 1,16 para R$ 5,82.
Um dos pontos enfatizados pela Gafisa na compra da Tenda foi a intenção de explorar o perfil de varejo da construtora, que atua por meio de lojas. Daí a contratação de Carlos Trostli, que veio do mercado de bens de consumo e não passou pelo setor imobiliário. Foi o principal executivo das subsidiárias brasileiras da Reckitt Benckiser, America Online e Quaker. Com a incorporação, a presença de Trostli deixou de fazer sentido, segundo fontes do mercado.